Zonas 20, 21 e 22: por que classificar corretamente o ambiente? O que a norma exige? O que os equipamentos precisam ter e por que improviso em área classificada não é opção?
A poeira industrial não costuma avisar. Ela se acumula nas superfícies, fica suspensa no ar e, nas condições certas de concentração e fonte de ignição, torna-se combustível. Em instalações como moinhos, silos, usinas sucroalcooleiras e áreas de processamento de grãos, pequenas partículas em suspensão podem criar atmosferas explosivas em questão de minutos.
O histórico de investigações do U.S. Chemical Safety Board documenta dezenas de explosões por poeira combustível em indústrias ao longo das últimas décadas, com vítimas fatais registradas em múltiplos eventos. No Brasil, acidentes em unidades de processamento de grãos e açúcar reforçam que o risco não é teórico, e que a maioria dos eventos tem origem em falhas de classificação de área ou uso de equipamentos inadequados.
O que significa classificar uma área e por que isso importa?
Classificar corretamente o ambiente é o primeiro passo para mitigar o risco de forma sistemática. No Brasil, a referência normativa é a ABNT NBR IEC 60079-10-2, que define os critérios para classificação de áreas com poeira combustível, alinhada à série internacional IEC 60079. A NFPA 652 americana é uma referência complementar relevante, especialmente para empresas com operações ou parceiros nos Estados Unidos.
A classificação divide as áreas em três zonas. A Zona 20 corresponde a locais onde a nuvem de poeira combustível está presente de forma contínua ou por longos períodos durante a operação normal como no interior de silos, moinhos e misturadores é o exemplo mais direto. A Zona 21 indica presença intermitente durante a operação normal, como a área imediatamente ao redor de pontos de carregamento e descarga. A Zona 22 corresponde a locais onde a poeira normalmente não está presente em suspensão, mas pode ocorrer em situações anormais como vazamentos, falhas de vedação ou limpeza inadequada.
Cada zona exige especificações distintas de projeto, seleção de equipamento e procedimentos operacionais. Tratar uma Zona 21 como ambiente convencional, usando sensores ou componentes sem certificação adequada é um erro que pode ter consequências irreversíveis. E o problema não é apenas técnico: em caso de acidente, a ausência de equipamento certificado para a zona classificada configura responsabilidade civil e criminal para os responsáveis técnicos e pela operação.
Por que sensores convencionais não são adequados em áreas classificadas?
Equipamentos não certificados para uso em atmosferas explosivas com poeira representam risco por três razões técnicas principais.
Primeiro, podem atingir temperaturas superficiais acima da temperatura de ignição da poeira presente no ambiente e cada tipo de poeira tem uma temperatura mínima de ignição específica, e o sensor precisa operar abaixo desse limite com margem de segurança comprovada em ensaio.
Segundo, podem gerar faíscas em seus circuitos internos ou conexões, especialmente em condições de falha.
Terceiro, permitem a entrada de partículas de poeira em suas cavidades internas, criando risco de ignição a partir do próprio equipamento que deveria estar protegendo a operação.
A certificação Ex para poeira indicada pela marcação “D” nas categorias de equipamento segundo a IEC 60079 exige que esses três riscos sejam controlados por projeto. Isso inclui limitação da temperatura superficial máxima, encapsulamento que impede a entrada de partículas segundo graus de proteção IP adequados à zona, e testes que comprovam comportamento seguro inclusive em condições de falha.
Documentação completa, rastreabilidade por número de série e ensaios individuais por unidade não são burocracia. São a evidência técnica e legal de que aquele equipamento específico não será fonte de ignição no ambiente onde está instalado e é exatamente essa documentação que uma auditoria ou investigação de acidente vai solicitar primeiro.
O que uma estratégia completa de segurança em área classificada precisa contemplar?
O equipamento certificado é condição necessária, mas não suficiente. Uma estratégia completa passa por quatro frentes integradas.
A primeira é a Análise de Risco de Poeira — Dust Hazard Analysis (DHA) que mapeia os materiais presentes, suas propriedades de inflamabilidade e explosividade, os pontos de geração e acúmulo e os possíveis mecanismos de ignição. Sem essa análise, a classificação de zona é uma estimativa e estimativas em ambientes com poeira combustível têm consequências conhecidas.
A segunda é a gestão de limpeza e housekeeping. Acúmulo de poeira em superfícies é um risco secundário frequentemente subestimado: uma explosão primária menor pode colocar poeira acumulada em suspensão e gerar uma explosão secundária de magnitude muito maior. Protocolos de limpeza com frequência definida, método adequado ao tipo de poeira e registro documentado são parte essencial do controle de risco, não uma rotina administrativa.
A terceira é a seleção correta de toda a infraestrutura elétrica e de instrumentação. Não apenas os sensores, mas cabos, conexões, prensa-cabos, quadros e passagens de parede. Cada componente instalado em área classificada precisa ter certificação compatível com a zona. Uma cadeia de proteção que tem um elo não certificado deixa de ser uma cadeia de proteção.
A quarta é a manutenção preditiva e as inspeções documentadas. Sensores de temperatura e movimento instalados em áreas classificadas precisam ser inspecionados em intervalos definidos, com verificação de integridade do encapsulamento, estado das vedações e funcionamento dentro dos parâmetros certificados. Um sensor Ex que perdeu a integridade do encapsulamento por desgaste ou impacto deixa de ser um sensor Ex , e pode se tornar exatamente o risco que deveria evitar.
O papel do fabricante nacional nesse contexto
Há um aspecto que merece atenção especial no cenário brasileiro. Usinas sucroalcooleiras, armazéns de grãos, moinhos e plantas de processamento de alimentos operam em condições climáticas e operacionais que têm características próprias: umidade elevada em determinadas regiões, variações térmicas significativas, tipos de poeira com propriedades específicas de inflamabilidade. Sensores desenvolvidos e ensaiados considerando essa realidade chegam ao campo com vantagem concreta em relação a equipamentos projetados genericamente para mercados internacionais.
Além disso, a proximidade do fabricante tem valor direto na operação: suporte técnico acessível, disponibilidade de documentação em português, peças de reposição sem prazo de importação e possibilidade de customização para aplicações específicas. Em ambientes onde a segurança não admite improviso, ter um fornecedor que responde rápido e conhece o contexto não é conforto, é parte da estratégia de risco.
Conclusão
Em áreas classificadas, a margem para improviso é zero. A classificação correta do ambiente, combinada com equipamentos que atendem às exigências normativas e possuem documentação rastreável, transforma o risco invisível da poeira em controle mensurável e auditável.
Para fabricantes nacionais, há uma responsabilidade adicional: desenvolver sensores que atendam às condições reais da indústria brasileira a variação de temperatura e umidade do país, os tipos de poeira mais comuns nas nossas usinas e armazéns, e a realidade de operação dos nossos processos. É exatamente esse compromisso que orienta o desenvolvimento dos sensores Esensors para ambientes com classificação Ex.
No próximo artigo desta série, vamos detalhar como selecionar e instalar corretamente sensores de temperatura em ambientes com presença de poeira combustível , da especificação técnica à documentação exigida para a comissão de inspeção.
A Esensors projeta e fabrica sensores industriais no Brasil, com engenharia nacional desenvolvida para as condições reais da indústria brasileira. Definindo o futuro da segurança industrial no Brasil.
